segunda-feira, 14 de abril de 2008

Procura-se

William Shakespeare – ROMEU E JULIETA

JULIETA - Romeu, Romeu! Ah! por que és tu Romeu? Renega o pai, despoja-te do nome; ou então, se
não quiseres, jura ao menos que amor me tens, porque uma Capuleto deixarei de ser logo.
ROMEU (à parte) - Continuo ouvindo-a mais um pouco, ou lhe respondo?
JULIETA - Meu inimigo é apenas o teu nome. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não
fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença
ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação
teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição
que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo,
fica comigo inteira.
ROMEU - Sim, aceito tua palavra
.
Dá-me o nome apenas de amor, que ficarei rebatizado. De agora em
diante não serei Romeu.


“Saber um conceito é saber usá-lo”
Wittgenstein

Procura-se

Pode parecer equivocado iniciar um texto com uma epígrafe tão extensa quanto à apresentada e ainda por cima ser esta, pelo menos a primeira vista, um corpo estranho ao assunto proposto, "o nome das coisas" . A epígrafe que segue, curtíssima, porém completa em seu sentido, busca elucidar o porquê deste texto estar inserido neste presente ensaio. Se não o fizer de imediato, o desenvolvimento do mesmo o fará. Esse “complexo” não recebe aqui uma carga cujo sentido seja de difícil assimilação e sim que responde por si a epígrafe antecedente.
O problema que foi proposto a ser resolvido é acima de tudo uma questão ontológica . Em segundo plano mas não menos importante uma questão concomitantemente epistemológica. “Fundamentalismo e integrismo: os nomes e a coisa.” Existe uma desordem conceitual quanto ao uso desses conceitos, o senso comum sabiamente possui um ditado popular que resume o problema diante de situação similar diz-se que “errou-se o nome à pessoa”. Na voz de Julieta Shakespeare introduz uma questão filosófica em sua obra, como aliás lhe era peculiar, sendo esta de ordem ontológica: “Julieta - Meu inimigo é apenas o teu nome”. Continuarias sendo o que és, se acaso Montecchio tu não
fosses. Que é Montecchio? Não será mão, nem pé, nem braço ou rosto, nem parte alguma que pertença
ao corpo. Sê outro nome. Que há num simples nome? O que chamamos rosa, sob uma outra designação
teria igual perfume. Assim Romeu, se não tivesse o nome de Romeu, conservara a tão preciosa perfeição
que dele é sem esse título. Romeu, risca teu nome, e, em troca dele, que não é parte alguma de ti mesmo,
fica comigo inteira.”
Não importava à Julieta o nome que Romeu possuía, antes importava o que realmente este era. O nome poderia apenas sustentar uma aparência e não deixar que a realidade, a verdade fosse suscetível à percepção sensível. Ou seja a questão era entre o ser e o não ser, questão tão antiga quanto à própria filosofia.
O autor do texto que segue é seguidamente questionado tanto pelos docentes quanto pelos discentes do curso de História que do qual o próprio é aluno por levar de maneira excessiva a filosofia para dentro do curso. A Nova História orgulha-se tanto em ser transdisciplinar em sua associação com outras disciplinas da área de humanas mas aparentemente, se não no discurso, pelo menos não veementemente, mas na prática, repudia aquela que possibilitou um dia estarmos tendo uma metodologia racional, uma ciência, enfim, daquela que toda Ciência deve seu “nascimento”. Ao leitor deste texto peço desculpas pela digressão incontida.
O pretexto histórico para a presente discussão é a “Revolução tradicionalista” do Irã em 1979. Êpa! Revolução tradicionalista? Não existe aí um equívoco conceitual? Uma contradição? Em essência uma revolução provoca uma ruptura, por sua vez algo tradicionalista dá a idéia de permanência. Como compreender esses acontecimentos sem compreender esses conceitos?

Pesquisando na rede mundial sobre integrismo achei o seguinte que gostaria de partilhar:
Sobre a “Doença do Islão”, de Abdelwahab Meddeb, passo a citar e comentar algumas passagens do livro:
“Se, segundo Voltaire, a intolerância foi a doença do catolicismo, se o nazismo foi a doença da Alemanha que Thomas Mann auscultou, o Integrismo é a doença do Islão.”
Disponível em:<http://espectivas.wordpress.com/2007/09/05/abdelwahab-meddeb-o-integrismo-e-a-turquia-1/>
O olhar ocidental sobre fatos orientais criou a necessidade deste ocidental instrumentalizar-se com o que dispunha-se teoricamente afim de objetivar o conhecimento. Weber já dizia ser impossível se despir de todo e qualquer preconceito quando se busca o conhecimento. Sempre carrega-se consigo algum pressuposto que de alguma forma influenciará o “novo” conhecimento a que se chegue. Portanto, quando o europeu percebe existir uma COISA no Irã cujo NOME a Europa já conhecia, ou seja, uma forma totalizante de regime que imiscuía tanto política quanto religião sob a égide da intolerância , que no caso da Europa a intolerância religiosa foi muito mais explicitada à parte da política que ficou implícita sob o véu das monarquias, conclui então tratar-se no mínimo de algo que poderia, pelas similitudes receber um nome já cunhado na Europa para aquela coisa que era o INTEGRALISMO , desconsiderando as diferenças culturais é claro.
O texto que deve ser a fonte do presente trabalho na página 184 cita Weber quando este tece comentários a respeito do Islã: “...uma religião de guerreiros que queriam conquistar o mundo, uma ordem cavalheiresca de cruzados disciplinados.” Isso lembrou a esse que escreve da pesquisa na rede, pesquisa já mencionada em site já supracitado que será transcrito parcialmente na tentativa de corroborar com a citação de Weber.
“Não os combatais junto da Mesquita Sagrada antes de vos terem combatido, mas, se vos combatem, matai-os! Essa é a recompensa dos incrédulos.” - Alcorão, Capítulo II, 191
“Matai-os até que a perseguição não exista e esteja em seu lugar a religião de Deus. Se eles se converterem, não haverá mais hostilidade: esta não cessará senão para os justos.” - Alcorão, Capítulo II, 193
“Não é próprio de um crente matar outro crente.” – Alcorão, Cap. IV, 92
Aqui, Maomé, mais benevolente, considera que “não é próprio que um crente mate outro crente”. Mas nada diz se é próprio (ou não) que um crente mate um não-crente. Para bom entendedor…
“Os infiéis são o vosso inimigo declarado.” – Alcorão, Cap. IV, 101
Para o Islamismo, o assassínio não é, necessariamente, um acto eticamente condenável. É mesmo recomendável, em determinadas situações. Existem muitas outras passagens do Alcorão que incitam directamente os fiéis à violência, e mesmo ao assassínio.”
Disponível em: <> acessado nov.27 2007

Estar então a religião presente na política de forma absoluta, totalizante e intolerante era característica que essencialmente formatava o integralismo. Interessante foi a percepção do uso do verbo “formatar” na construção da última frase. Lembra a teoria das idéias de Platão. No mundo das Idéias todos as COISAS tinham suas respectivas formas universais que no mundo sensível recebiam seus respectivos NOMES pela participação que usufruíam das formas destas coisas no mundo das idéias. Portanto, por ocasião da construção do conceito híbrido, visto que quem o construiu foi um ocidental, com toda carga de pressupostos ocidentalizantes sobre um panorama atípica a este, diria Platão que a construção teórica foi nada mais nada menos do que “fazer” com que a forma universal da COISA participasse com o NOME desta.
Muitos acreditam tratar-se de pleonasmo quando fala-se fundamentalismo mulçulmano. Isso deve-se a crença errônea quanto a origem do fundamentalismo quanto pensamento . Ao contrário do que acredita-se o a origem deste pensamento é protestante norte-americano. É o que hoje poderia se chamar de uma contra cultura. O Século XIX estava impregnado por pensamentos onde a razão, coisa que já vinha ocorrendo desde o final do século XVII, mas que no período em questão teve seu ápice com o desenvolvimento das ciências Humanas. Surge no cenário científico Darwin e sua teoria evolucionista que para a época, que para época surpreendeu a humanidade ao afirmar não ser o homem fruto de um ser supremo mas obra da natureza.
O Fundamentalismo antes de mais nada é criacionista e nega a possibilidade de erro da bíblia. Como o fundamentalista percebe na ciência, na modernidade uma ameaça a suas crenças o fundamentalismo volta-se contra essa modernidade e militando em prol de uma tradição. Entretanto, para o fundamentalista até mesmo esta tradição já foi à priori contaminada por esta modernidade a ser combatida. O pensamento fundamentalista tanto no século XX quanto no início do XXI é sinônimo de fanatismo. O dogmatismo envolvido em suas práticas, hoje já mais conhecidas pelo Islã do que por aqueles que o originaram, protestantes norte-americanos, assustam a humanidade nos noticiários pois a violência empregada em seus atos supostamente religiosos tem uma finalidade reacionária e mítica por ser um retorno a um tempo fundador, quase mítico. Isso poderia ser melhor estudado com as teorias de Mircea Eliade, em sua obra O mito do eterno retorno. Embora possuam diferenças as semelhanças são marcantes no tocante ao retorno temporal.
Logo, PROCURA-SE o NOME e as COISAS. Julieta aos 12 anos de idade já sabia que o importante não é o nome, pois o nome não representa a essência da coisa. Procura-se na razão a verdade que persiste em esconder-se por trás das aparências. O ser que é único e transmuta-se na multiplicidade. Wittgenstein diz: “Saber um conceito é saber usa-lo.” Platão diria que seria conhecer sua forma universal, só assim seria possível conhecer este conceito no mundo. O que fica para os historiadores é a dificuldade e o desafio de dominar conceitos para a compreensão do objeto de estudo do mesmo, as alternâncias do homem no tempo e no espaço, o Devir histórico. Na falta de conceitos apropriados é na filosofia, na epistemologia que o historiador vem buscar guarida. A construção teórica se faz necessária para a compreensão histórica do mundo. Procura-se incansavelmente as ferramentas para o trabalho deste que labuta com o passado, procura-se nos lugares mais inimagináveis, na canastra da Emília do Sítio do Pica-Pau-Amarelo, na caixa de Pandora, na dramaturgia “shakespeariana”, na filosofia hegeliana ou em qualquer outro lugar onde a verdade das COISAS podem estar contidas atrás dos NOMES destas. PROCURA-SE, CASO NÃO ACHAR O HISTORIADOR QUE NÃO FOR MERO VASCULHADOR DE CACARECOS, MAS SOBRETUDO UM PENSADOR ELE INVENVENTA A FERRAMENTA CERTA, SE NÃO FOR A CERTA, PRAGMATICAMENTE SERVIRÁ.

sexta-feira, 4 de abril de 2008

Deus na terra dos homens – “Direito Divino” frente “Destino Manifesto”

Antigo Regime

O Antigo Regime é o período histórico europeu correspondente às monarquias absolutistas. A partir do século XII começaram a se formar na Europa os Estados Nacionais, dos quais Portugal é o primeiro.
Porém, esta é uma realidade que vai se fazendo paulatinamente. Conforme estes Estados vão se constituindo, vão se formando monarquias como regime governamental.

O Feudalismo O sistema feudal inviabilizava qualquer forma de centralização governamental. Os nobres fragmentaram o poder entre si , o qual era proporcional ao domínio territorial. Desta maneira a figura do rei era destituída de qualquer poder significativo frente aos demais nobres. Enquanto os monarcas enfrentavam neste longo período histórico um ostracismo político, a Igreja por outro lado tratou de fundamentar-se durante esse transcorrer histórico obscuro, solidificando-se como Instituição inconteste. A Idade Moderna termina com a Igreja sendo detentora do poder político europeu, pois suas prerrogativas sobre as mais sólidas monarquias de então é inegável. Tanto o era que os reis de Espanha , Fernando e Isabel são conhecidos como os “Reis Católicos”.

O “Direito Divino”

A fase que expressa o absolutismo em seu ápice foi pronunciada por Luiz XIV, o Rei Sol : L’ État c’est moi – O Estado sou eu. Na era moderna as monarquias absolutistas européias apropriaram-se dos Estados como se deles fossem proprietários, tornando-se desta maneira senhores destes, assim como os senhores feudais o eram em seus feudos de outrora. A forma de assegurar o Poder era assegurar o território. Mas sob que discurso essa situação persistiu? Essa ideologia impregnou os Estados europeus. Qual era essa e qual seu pressuposto maior ?A base de sustentação do poder monárquico absolutista estava alicerçado na idéia de que o poder dos reis tinha origem divina. O rei seria o “representante” de Deus na terra,o que permitiria desvincular-se de qualquer vínculo limitativo de sua autoridade. ( STRECK, LÊNIO LUIZ, 2001, p. 45 ) Percebe-se então que a justificativa ideológica passa pelo contexto religioso. A Igreja está desde a origem ligada intimamente a nobreza pois os membros do clero pertencem em quase sua totalidade a esta. Os interesses de uns está intimamente ligado aos interesses dos outros, assim clero, nobreza, realeza, poder, monarquias sempre pertenceram a um mesmo contexto. Durante as Grandes Navegações, sob o pretexto de catequizar os povos infiéis a Igreja se fez sempre presente nas naus que singravam os oceanos. Os reis de Espanha faziam seus representantes portarem uma espécie de ultimato aos povos dos lugares que a coroa espanhola fosso descobrindo e tomando posse. Esse documento descrevia uma série de atitudes a serem adotada tão logo os desbravadores aportassem em novas terras. Apresentavam se possível as credencias da coroa real ao povo nativo, como se estes o compreendessem, e os convidavam a tornarem –se cristãos, aceitando Cristo como salvador através do batismo católico. A recusa a qualquer destes procedimentos era determinante para a sentença de morte do insurgente. Assim, justificava-se o extermínio de milhões de indígenas nas Américas, tratava-se apenas de infiéis que recusavam-se a aceitarem Cristo em seus corações.O discurso desejava ser ético, contudo permitia o genocídio de milhões. O poder de um homem, o rei, havia sido absolutizado. Essa forma de poder fora, segundo a crença do “Direito Divino” outorgado pelo próprio Deus. Essa forma de governo resultou em uma série de problemas históricos, tendo seu auge com a Revolução Francesa. Em última instância a ideologia do “Direito Divino” está amparada em Deus e nele reside sua sustentação.

“Destino Manifesto”

As 13 colônias inglesas na América do Norte demonstraram ser desde suas respectivas origens possuírem um diferencial daquelas que haviam sido colonizadas pelos povos da península Ibérica, embora adotando o mesmo regime de “plantation”- monocultura de larga escala com mão de obra escrava. Ao contrário do que ocorreu no Brasil , por exemplo, os colonos que foram para a América do norte o fizeram no exercício de seu livre arbítrio, caso contrário dos primeiros colonos brasileiros que eram constituídos em sua grande maioria em exilados, considerados parias sociais em Portugal. Os colono ingleses eram protestantes, conhecidos como peregrinos, possuíam uma vida ascética e buscavam um lugar onde pudessem exercer sua religião sem interferência da coroa. Esses estabeleceram-se ao norte das colônias. Embora existissem outras colônias na América do norte, foi a imagem do peregrino, colono situado mais ao norte das 13 colônias que ofereceu o estereótipo cuja identidade norte-americana se moldou. Foram estes que inicialmente disseminaram a idéia deles próprios serem o novo Israel de Deus , o povo escolhido.

Razão à meia luz

Durante séculos a razão esteve subordinada à fé. Todo conhecimento era acumulado pela Igreja, pois sabia-se de antemão que o domínio do conhecimento possibilita um olhar crítico sobre o mundo e consequentemente sobre o “status qüo” vigente. A Igreja já havia instituído o Santo Ofício Inquisitorial para punir todo aquele que ousasse contrariá-la. Galileu Galilei para não terminar seus dias na fogueira negou frente ao Santo Ofício todo conhecimento que havia desenvolvido e resignou-se a pedir perdão a Santa Madre Igreja por ter se oposto aos seus “santos” e “infalíveis” conhecimentos. Todos sabem que isso não passou de um estratagema do grande físico. Sua maior produção científica deu-se posteriormente a esse fato,visto que sua sentença de herege foi atenuada pelo arrependimento e pedido de perdão que ao certo o condenaria a morte pela fogueira para uma pena de prisão perpétua domiciliar , assim pode dedicar-se integralmente a suas pesquisas enquanto cumpria sua pena imposta pela Igreja.O renascer da razão se deu sob longa e dolorosa dores de parto. A Igreja manteve engessada qualquer forma de pensar que pudesse desvincular fé e razão. São Tomás de Aquino e Santo Agostinho são expoentes desta época, onde estes sacerdotes posteriormente canonizados buscam organizar argumentos ontológicos que sustentam a existência divina através da razão. Santo Anselmo da Cantuária formulou um célebre argumento para a existência de Deus, argumento este que ficou conhecido como “ratio Anselmi”Cito Anselmo: "Cremos, pois, com firmeza, que tu és um ser do qual não é possível pensar nada maior. Ou será que um ser assim não existe porque "o insipiente disse, em seu coração: Deus não existe"? Porém, o insipiente, quando eu digo: "o ser do qual não se pode pensar nada maior", ouve o que digo e compreende. Ora, aquilo que ele compreende se encontra em sua inteligência, ainda que possa não compreender que existe realmente. ... Mas "o ser do qual não é possível pensar nada maior" não pode existir somente na inteligência. Se, pois, existisse apenas na inteligência, poder-se-ia pensar que há outro ser existente também na realidade; e que seria maior". (Proslogion; cap. II) Disponível em: < http://www.speculum.art.br/module.php?a_id=1541> acesso14 nov. 2007-11-14 No limiar do século XVIII a humanidade transpira e conspira em torno da liberdade. A fé busca a razão. Os grilhões que a pendiam a escuridão devem ser rompidos e o que vem a tona é a luz, aquela luz da caverna platônica, onde os homens começam a perceber o mundo real, factível, cuja ferramenta para adentra-lo é a razão – A luz da humanidade.

O Iluminismo

A razão, que encontrava-se residente de mosteiros e abadias, vendo-se obrigada a dividir sua morada com a fé, cuja conciliação sempre fora uma questão pró-forma na intenção de satisfazer as predileções epistemológicas de seus anfitriões, sendo esta uma questão arbitrária, dogmática, portanto não racional. No final do século XVII e início do século XVIII a Europa promove um retorno cultural ao período histórico conhecido como Classicismo. Esse movimento refletiu em todas as áreas culturais. O pensamento Clássico, ou seja, a Razão, torna-se o centro das atividades intelectuais, desacreditando a fé como expressão de verdade. Grandes nomes surgem como expoentes deste pensamento iluminista, Voltaire,Rosseau, Montesquieu, Condorcet, Locke, Hobbes entre outros que disseminaram uma nova maneira de ver o mundo.A claridade proporcionada pelo Iluminismo, ou ainda Enciclopédia, trouxe a idéia de Igualdade, Fraternidade e Liberdade entre os homens. Essas idéias liberais iriam a partir de então modificar as relações individuais das pessoas bem como das nações. O desejo de possuir uma propriedade passava mais pelo “status” de liberdade que a condição de proprietário propriamente dito. A relação do homem com as coisa do mundo a partir de então passam por severas alterações. O mundo da idéias passa a exercer domínio no mundo sensível, aspirações deixam de sê-las para tornarem-se parte do dia-a-dia da humanidade, uma nova ideologia está sendo forjada. Os ideais iluministas já haviam proporcionado algumas reformas nas monarquias dos chamados Déspotas Esclarecidos. Onde à luz dessas idéias tentou-se conciliar o liberalismo premente desta idéia então nascente com o então morredouro absolutismo. Porém na Europa estas idéias estavam ainda em processo de levedura, fermentando. Não havia surgido a oportunidade que estas fossem mobilizadas com um planejamento prático e efetivo. Porém, do outro lado do oceano Atlântico a coisa se diferencia de contexto.

Revolução Americana

Na década de 1760 as 13 colônias da Inglaterra na América do Norte encontravam-se totalmente descontentes com a metrópole. A Maneira como o fisco era efetuado e vários outros fatores, entre estes a franca divulgação das idéias iluministas fez crescer entre os colonos o desejo de emancipação da metrópole que a muito já não aferia nenhum privilégio ao colono americano. A Inglaterra, enfraquecida pela Guerra dos 7 anos, embora vencedora encontrava-se dividida e sem condições de manter um outro conflito. Neste contexto em 1776 as 13 colônias declaram então sua independência. Após alguns anos onde a República foi consolidada, passando por dissensões internas a questão agora era a construção de uma identidade nacional. As 13 colônias, não constituíam uma unidade cultural. A tarefa era fazer com que se forjasse uma identidade que perpassasse a todas as colônias.
O povo eleito
Assim como fala Cuche (1996, p. 182) ...”A identidade é uma construção que se elabora em uma relação que se opõe um grupo aos outros grupos com os quais está em contato.” A função dos líderes da Revolução Americana era manter o êxito desta no tempo. Para tanto a necessidade era transformar aquilo que nasceu fracionado , em 13 segmentos territoriais distintos, cada um destes com representantes cuja tendência era a defesa de interesses mais imediatos, os seus. Fazer com que colonos de lugares diferentes se percebessem fazendo parte de um mesmo propósito foi o primeiro desafio norte-americano após a independência. O culto aos heróis da revolução, tendo estes suas imagens esculpidas em rocha em local tido pelos indígenas como sagrado teve uma carga simbólica imensa frente ao imaginário americano que percebe a partir de então naqueles homens uma aura mítica antes desprovida.Esse olhar sobre esses heróis que partilhavam de uma história comum forneceu uma das bases da identidade americana. Contudo, a principal tese da formação cultural da identidade norte-americana passa pela idéia mítica de se fazer pertencer a nação cujo povo fora eleito por Deus, assim como a narrativa bíblica relativa a Israel. Desta forma os E.U.A. estariam designados por Deus para guiar as nações da Terra, pois seriam o povo escolhido. Já em 1850 0 texto de White Jacket, escrito por Herman Melville (também autor de Moby Dick) escreveu:Nós americanos, somos o povo peculiar, escolhido- o Israel de nosso tempo; carregamos a arca das liberdades do mundo (...) Deus predestinou, e a humanidade espera grandes feitos da nossa raça; e grandes coisas sentimos em nossa alma. O resto das nações precisa, brevemente, estar na nossa retaguarda. Somos os pioneiros do mundo; a guarda avançada mandada através da terra virgem de coisas não experimentadas, para abrir no Novo Mundo um novo caminho que é nosso(...) Num período em que outras nações não fizeram senão balbuciar, nossa voz profunda é ouvida longe. Por longo tempo fomos céticos a respeito de nos mesmos e duvidamos se realmente o Messias político havia chegado. Mas ele chegou em nós, como se não tivéssemos feito senão dar expressão oral às suas inspirações.(MELVILLE apud JUNQUEIRA, 2001, p 37,38) Desde cedo em sua história os E.U.A. incorporou a crença do “Destino Manifesto” a sua identidade cultural. A partir desta crença esta nação vem influenciando não apenas sua própria história mas de maneira arbitrária articulando a política mundial. Na década de 1830 os americanos já se arvoravam em utilizar esta tese como justificativa de sua política externa com o México relativa a anexação do território do Texas pelos E.U.A., território este que era pertencente ao país vizinho que veio perde-lo graças a política expansionista norte-americana Pois bem, se necessitaram outras razões para justificar que agora eliminaremos o problema da anexação do Texas com o das mesquinharias de nossas antigas dissensões partidárias e o elevemos ao nível que lhe corresponde, que é dos altos e amplos objetivos nacionais, seguramente as acharemos, e em abundância, no modo como outras nações se propuseram intrometer-se neste assunto, interpor-se entre nós e os que são propriamente parte do assunto, em um espírito de interferência hostil para conosco, com o objetivo confesso de modificar nossa política e prejudicar nosso poder, limitando nossa grandeza e impedindo a realização de NOSSO DESTINO MANIFESTO que é estendermo-nos sobre o continente que a Providência fixou para o livre desenvolvimento de nossos milhões de habitantes, que ano após ano se multiplicaram.(O’ SULLIVAN apud OSCAR, 2000, p 250 – o grifo é meu) A identidade cultural, assim como afirma Denys Cuche, etnólogo estruturalista francês é uma construção. As bases da identidade americana está amparada na crença do povo escolhido , cujo “Destino Manifesto” foi manifesto a este povo o qual cabe cumprir com os desígnios divinos.
Deus na terra dos homens
A antropologia nos mostra que o homem enquanto espécie, desde que tomou consciência de sua história, concomitantemente a isso desenvolve uma necessidade inerente a si, embora contestada por muitos, a espiritualidade. Esta faria parte da natureza humana. Desde as mais primitivas formas de cultura algum tipo de espiritualidade encontra-se presente. Primitivamente esta espiritualidade estava ligada ao culto aos antepassados e a natureza. O que cabe aqui salientar é a inerência do homem com essa necessidade espiritual, que desde os seus primórdios busca ser suprida. Este projeto não possui a pretensão de ser um estudo teológico. Para esta pesquisa a existência ou não de Deus não está sendo questionada. Este projeto parte do pressuposto que Deus é uma construção cultural, portanto ele existe como elemento de um discurso justificativo, portanto um discurso ético. Segundo a visão que será apresentada a Terra é dos homens, nesta Terra Deus não é o potentado. Contudo, paradoxalmente é em Deus que o Homem busca legitimação do poder secular. O “Direito Divino é uma doutrina que tenta justificar o poder absoluto do rei por afirmar que este poder emana de Deus. Este “Direito Divino” representava, ou ainda, era a personificação do Antigo Regime, tudo aquilo que as idéias iluministas contestavam então. Liberdade, Fraternidade e Igualdade, palavras que viriam a ser bandeiras da Revolução Francesa, que anteriormente a esta antecederam do outro lado do Atlântico, nas 13 colônias inglesas o desejo de ver-se livre desse regime considerado então repressor por não proporcionar as virtudes que o Iluminismo propagava. Surge assim os E.U. A., com princípios iluministas , liberais e libertários, rompendo com a monarquia inglesa representante esta do Antigo Regime absolutista partidária do “Direito Divino”. Mas não era o próprio Deus que havia concedido o direito do qual os americanos estavam contestando como legítimo? O pressuposto das teses em questão é apenas um: Deus existe e concedeu ao rei ,no caso do “Direito Divino”, o direito de reinar em caráter absoluto. Por outro lado existe uma nação cuja identidade está baseada no pressuposto de que Deus existe e concedeu a esta Nação o direito de governar sobre as demais em caráter absoluto. Percebe-se que o movimento revolucionário norte-americano de 1776 planejou um corte no sistema de então negando sua ideologia de forma pragmática. Pois a revolução americana provocou mudanças na forma não na essência do discurso ideológico. Anteriormente o poder absoluto estava representado na figura de um indivíduo entre tantos, o rei. Agora esse poder absoluto seria exercito pela força de coação de uma nação sobre as demais. De certa maneira a ideologia absolutista seria mantida sob outro enfoque e principalmente sob outras mãos, o poder havia mudado de lado e com ele Deus. Ao emergir no cenário mundial cunhando desde seu nascedouro a imagem de ser detentora do favor Divino constitui-se como elemento da identidade nacional do povo americano que se vê como povo escolhido e manifesta este dizer em seus discursos oficias sem o pudor de constranger as demais nações do mundo. Para os reis absolutistas Deus avalizava seus respectivos reinados e aferia a estes o direito de dispor deste poder como lhes provesse, afinal o próprio Deus havia conferido a estes este direito. Este mesmo comportamento e claramente percebido em relação aos E.U.A. e a maneira que este se apresenta ao restante do mundo. Portanto, fica um problema a ser resolvido: O Devir histórico antagonizou “Direito Divino” e “Destino Manifesto” por estes representarem ideologias diametralmente opostas no cenário do pensamento político histórico. Entretanto, para justificar-se e legitimar-se ambas utilizam-se de um mesmo pressuposto teórico. Como idéias contraditórias podem ser fundamentadas em um mesmo princípio? Que princípio é esse?



Referências: ANDRADE, Abrahão Costa. Paul Ricouer: O sujeito na História, Síntese: revista de filosofia, Belo Horizonte, p. 29-42, jul. 2006 CUCHE, Denys. A noção de cultura nas ciências sociais, 2ª edição, Bauru- SP, EDUSC, 1996 DAHLER, Hugo. O argumento ontológico de Santo Anselmo. Disponível em: < http://www.speculum.art.br/module.php?a_id=1541> acesso14 nov. 2007-11-14 JUNQUEIRA, Mary A . Estados Unidos: A consolidação da Nação, 1ª edição, São Paulo, Contexto, 2001 MORAIS, José L. B. de, STRECK, Lênio Luiz, Política e teoria geral do Estado, 2ª edição, Porto Alegre, Livraria do Advogado, 2001 OSCAR, Aquino Jesus, História das Sociedades Americanas. 1ªedição, Rio de Janeiro – São Paulo; Editora Record,2000 REIS, José Carlos. História e teoria- Historicismo, modernidade, temporalidade e verdade, 1ª edição, Rio de Janeiro, Editora FGV, 2003 REIS, José Carlos. O Historicismo – A redescoberta da História. LOCUS – Revista da História, Juiz de Fora, p. 24-56 nov. 2002 ZILLES, Urbano. O problema do conhecimento de Deus, 2ª edição, Porto Alegre, EDIPUCRS, 1997 .

VALOR DE JUÍZO ÉTICO – AGREGADOR OU CORRUPTOR HISTÓRICO ?

A História, ao pretender-se como Ciência, lança mão de métodos específicos que contribuem para que esta seja coerente com sua pretensão e assim ostente uma objetividade característica da racionalidade científica. Em História o valor de juízo é costumeiramente visto como algo menor, não científico, não acadêmico, por acreditar-se que este está por natureza empregnado de subjetividade, portanto, não científico, o que significa dizer que esta valoração não seja conhecimento, que por sua vez não trás consigo nenhuma verdade, o que relega a valoração de juízo ao limbo acadêmico.
A humanidade, sob os auspícios dos ideais iluministas do século XVIII vem desde então em uma marcha “civilizatória”; e este léxico vem carregado de valor de juízo, por isso as aspas. A Igualdade propagada desde a Revolução Francesa e antes desta, pela Revolução Americana vem, no transcorrer dos séculos, operado mudanças nas mentalidades do mundo ocidental. A superação efetiva das diferenças continuam sendo um ideal. Entretanto, a Igualdade é uma meta inconteste do mundo ocidental.
Em virtude da busca de Igualdade pela superação das diferenças torna-se um risco valorar a respeito de algo, principalmente quando trata-se de uma cultura diferenciada, digamos assim, para tornar a predicação menos valorativa possível. Então, quando trata-se de realizar valor de juízo ético sobre determinada cultura isso caracterizaria gravíssima heresia acadêmica, sujeita, quem sabe, a uma análoga Inquisição.
Calar-se diante do mundo pode parecer apropriado para o Cético. Porém, para aqueles que procuram conhecer o mundo se faz necessário não apenas a perplexidade diante deste. Tome o caso da China e do Japão por exemplo. Estes países são exemplos de povos cuja respectivas culturas são no mínimo estranhas a um ocidental. Pode-se então basear-se nesta estranheza e setenciar um juízo no qual os valores destes são ditos como errados? Pode-se categoricamente afirmar que esta ou aquela cultura apresenta-se equivocada?
O filósofo alemão do século XVIII, Imanuel Kant afirma em sua obra que a ética é universal, ou seja, que valores morais serviriam para toda e qualquer situação, para todo e qualquer povo e ainda, para todo e qualquer momento histórico. Entrementes, é difícil negar a existência das mais variadas formas de ver o mundo e por conseqüência, das mais variadas visões decorrente disto, ou ainda, das formas variadas de ação em função daquelas. Estaria o Relativismo Moral correto? O que nos diz a Lógica a respeito?
Ao se constituir o seguinte argumento:
(1) Diferentes culturas possuem diferentes códigos morais.
(2) Logo, não há “verdade” objetiva na moralidade, certo ou errado são apenas questões de opiniões, e as opiniões variam de cultura para cultura.
Percebe-se que embora seja um argumento persuasivo não possui consistência Lógica, pois a conclusão não deriva da premissa, mesmo sendo esta verdadeira a conclusão pode ainda ser falsa.
Assim como pode ser falso, este argumento pode ainda ser verdadeiro. Como seria se assim fosse o caso? Não se poderia afirmar que os costumes de outras sociedades são moralmente inferiores aos próprios daqueles que estariam valorando a respeito. No caso do Relativismo Cultural ser verdadeiro inexistiria a competência necessária para afirmar-se, por exemplo, que uma sociedade tolerante aos judeus fosse melhor que uma anti-semita. Pode-se ainda decidir se as ações estão certas ou erradas apenas por meio da consulta aos padrões de uma sociedade, contudo, isso faria com que um sul-africano negro, sob o regime do ‘apartheid’ concordasse com este, pois tratava-se do padrão sul-africano. A verdade do Relativismo Cultural implicaria na colocação de dúvida sobre a idéia do progresso moral da humanidade. Já que progresso implica na substituição da forma de fazer algo por uma forma melhor. Mas sob que padrão uma forma é melhor do que outra? Até mesmo as reformas sociais pleiteadas pelos povos não se justificariam já que dentro deste conceito ninguém pode desafiar seus próprios ideais, já que estes são os padrõs culturais de seu próprio povo que por definição estão corretos e não podem ser contestados.
Observa-se que existem padrões de comportamento universalmente aceitos em qualquer cultura. Não mentir e não matar são exemplos de uma normativa ética universal. No caso da primeira, se não houvesse a censura moral relativa a mentira, ao levar-se esta até as últimas conseqüências haveria um comprometimento do discurso, a comunicação tornaria-se impossível, o que inviabilizaria a existência da sociedade. A conseqüência seria a mesma no caso da segunda. Caso não houvesse censura moral relativo ao assassinato não haveria chances de ter-se formado uma sociedade humana, pois a desconfiança propiciaria o isolamento dos indivíduos.
Portanto, existem regras que são comuns em qualquer cultura, pois estas se impõem como necessárias para a existência da sociedade humana. A existência de normativas éticas universais é clara. Mesmo que um povo as desconheçam isso não significa que as mesmas não existam. Entretanto, mesmo que o argumento que pretende sustentar o Relativismo Ético não possua sustentabilidade lógica-formal, pois sua conclusão não deriva necessariamente de sua premissa maior, fica-se tentado pelo empirismo premente das relações sociais a considerar o Relativismo Cultural ao menos de forma “relativa”, pois existem de fato situações que são meramente cultural, como por exemplo, a mulher cobrir ou não seus seios.
Ao se estudar a história da China e do Japão o pesquisador confronta-se com costumes totalmente diferenciados do ocidente. Formular juízo de valor relativo a estes é uma tentação. Seria correto esta formulação? Ao se fazer tal juízo estaria se deixando de fazer ciência histórica?
Este texto , até o presente momento, transcorreu afirmando que o Relativismo Cultural é falacioso, entretanto, salientou a necessidade de flexibilização. A premissa : “ A valoração de juízo ético é universal.”; não pode ser considerada absoluta, pois assim como existem questões éticas que estão presentes em qualquer sociedade, portanto universais, existem questões que é meramente questão de costume.
Hegel em sua obra póstuma, “Filosofia da História”, inicia o capítulo relativo à China com a seguinte proposição:
“É com o Império chinês que a história deve começar, pois ele é o mais antigo dos que ela dá notícia; isso porque o seu princípio é de tal substancialidade que é ao mesmo tempo o mais antigo e o mais novo.”
Hegel não queria aqui violar o princípio aristotélico da não- contradição, ou seja, dizer e desdizer o mesmo predicado de algo ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto. Quando o grande filósofo alemão diz o que diz e acrescenta, “ao mesmo tempo o mais antigo e o mais novo” ele estava fazendo referência a aspectos diferenciados. A China era realmente o império realmente mais antigo e quando Hegel diz que também era o mais novo ele estava referindo-se a ausência de mudanças substanciais em sua essência no transcorrer histórico. A China apresentava-se como quando ainda era um Estado novo pois inexistiram mudanças.
O ensaio “ A pesada herança histórica da China moderna”, autoria de Vito Letizia, busca na explicação histórica chinesa respostas quesatisfaçam os questionamentos referentes a atual conjuntura política e econômica da China. Letizia inicia seu texto pela Dinastia Han. Relata a forma estamental da sociedade chinesa bem como sua burocracia. Lembra a política de segregaçãodo mandarinato e como esta chega ao século XXI mantendo sua essência, embora sob uma forma política exdrúxula, ou, buscanco manter a imparcialidade, híbrida, que mistura “socialismo” com capitalismo. Forma esta que nada mais é que a manutenção do mandarinato no poder político chinês, ou seja, a China pouco muda, em essência nada.
Letizia lembra como o mandarinato manteve-se no poder durante os séculos e como este poder mantém uma segregação social de uma grande maioria.
O que se pode afirmar quanto ao Japão? Ruth Benedict em sua obra “O crisântemo e a espada: padrões da cultura japonesa” procura a essência do povo japonês, a compreensão desta cultura. No início do capítulo 3 ela inicia dizendo: “ Qualquer tentativa de entender os japoneses deverá começar com a sua versão do que significa “assumir a posição devida”.” Continua explanando sobre o que seria “assumir a posição devida”. Explica ela que é “a confiança japonesa na hierarquia”. Compreender o Japão passaria então necessariamente pela compreensão desta hierarquia e sua devida observância à exaustão em todas as etapas da vida, em todos os segmentos sociais, desde a família, berço e escola deste aprendizado hierárquico.
Segundo as pesquisas de Benedict, a justificativa japonesa para a segunda guerra mundial era a busca por uma conformação, onde os Estados mundiais encontrariam seu devido lugar no mundo. Portanto, em última análize, a obstinação cultural em busca de uma hierarquização das relações de poder mundial levou a parte oriental do mundo a um conflito bélico sem precedentes históricos.
Outro ponto a ser considerado é relativo ao fato de que em uma sociedade baseada no sentimento hierárquico não existe espaço para a Igualdade. Existe sempre a lembrança, quer pela vestimenta, gestos, ou qualquer outro tipo de deferência da devida posição a ser ocupada pelo indivíduo na sociedade.
Dialeticamente o BEM é aquilo que está em coerência consigo mesmo, o MAL é aquilo que contém alguma incoerência. O BEM é aquilo que deve ser, o MAL é aquilo que não deve ser. Segundo os gregos o BEM existe sob muitas formas de virtudes, sendo a Justiça uma virtude ímpar. Porém, o que é Justiça? Para os romanos Justiça era fazer o que era justo. Longe de ser uma proposição tautológica, justo refere-se aqui a parte justa, ou seja, parte igual. Portanto, algo justo é algo que está sob igual condição, ou ainda, JUSTIÇA é EQUIDADE.
Sendo então o BEM aquilo que deve ser e este sendo universal, e ainda, sendo a Justiça uma das formas em que este BEM apresenta-se, esta é válida para todos os homens, sob qualquer condição. Portanto, JUSTIÇA é IGUALDADE.
Hegel em seu último parágrafo do capítulo referente à China na obra já supracitada diz:
“O imperador sempre fala com majestade, bondade paternal e carinho ao povo, que, por sua vez, só possui os piores sentimentos para consigo mesmo, e acredita ter nascido só para puxar o carro do poder da majestade imperial. A carga que oprime esse povo parece lhe ser um destino inevitável. Eles não acham horrível serem vendidos como escravos e comer o amargo pão da servidão.”
Percebe-se aqui que estas frases estão empregnadas de juízo de valor. É perceptível a desaprovação do filósofo à condição de submissão do povo chinês. Letizia em seu ensaio demonstra que após Hegel a situação continua imutável na China até os dias de hoje. Por sua vez, Ruth Benedict demonstra o devotamento do povo japonês a uma cultura hierárquica, na qual tudo encontra respaldo nesta.
Em uma sociedade hierárquica a Igualdade não encontra espaço dentro das manifestações culturais. À luz da razão nota-se aqui que Justiça para ser justa deve refletir Igualdade.
Portanto, tanto a China quanto o Japão são exemplos de culturas onde prevalece a injustiça, pois, seguindo as premissas que conduziram este texto até aqui, a Justiça não pode prescindir da Igualdade, pois JUSTIÇA é IGUALDADE. Situação inexistente tanto no Japão quanto na China.
Não pode se argumentar baseado no Relativismo Cultural, pois como ficou demonstrado este não se sustenta. Os valores morais não podem ser relativizados. Quando estes são formulados à luz da razão eles agregam conhecimento. Entretanto, quando são trazidos à tona sem prévia reflexão servem apenas como premissas falaciosas que corrompem a História, não acrescentam conhecimento e destiue esta como Ciência. Portanto, quando de maneira correta, os juízos valorativos podem e devem ser formulados. Hegel é um exemplo disto.


Bibliografia:

Hegel, Georg W. F., Filosofia da História

Rachels, James, Os elementos da filosofia da moral

Lima, Carlo cirne, Dialética para principiantes

Letizia, Vito, A pesada herança histórica da China moderna
Benedict, Ruth, O crisântemo e a espada: padrões da cultura japonesa

quarta-feira, 2 de abril de 2008

ESCOLAS HISTÓRICAS E SUAS VERDADES. VERDADES?

ESCOLAS HISTÓRICAS E SUAS VERDADES.
VERDADES?

“ Em questão de ciência a autoridade de mil pessoas não tem o mesmo valor que o raciocínio humilde de um só indivíduo.”
GALILEU GALILEI

A Verdade, um ser a muito procurado pela humanidade continua sendo fonte de inúmeras controvérsias. A mais ou menos 2.500 anos atrás um tal de Sócrates já se questionava a respeito. Sua vida foi registrada para posteridade por seu discípulo mais famoso, Platão. Esse , entre outros diálogos, escreveu um chamado Teeteto, onde Sócrates pergunta ao personagem que dá título a este diálogo se o mesmo saberia discorrer a respeito do que seria conhecimento. O diálogo prossegue e chegam a três possíveis respostas. Primeiramente argumenta-se que conhecimento seria a Doxa – opinião. Posteriormente percebe-se que a opinião não poderia ser, pois proporcionaria , assim como justificaria, a forma protagoriana de buscar-se a pretensa Verdade epistemológica, onde esta seria relativa a cada opinião, o que tornaria impossível a objetivação do conhecimento.
O diálogo socrático prossegue e chega-se a uma encruzilhada epistemológica e pensa-se então que o conhecimento advém da opinião verdadeira. Entretanto, como conhecer ou ainda reconhecer a verdade por trás de cada opinião? Então suscita-se que o conhecimento é alcançado através da opinião verdadeira justificada. Contudo, o prosseguimento do diálogo demonstra que essa conclusão não seria ainda satisfatória para o elucidamento a que se propôs. Enfim, Sócrates termina o diálogo sem dizer explicitamente como seria possível chegar ao conhecimento e por sua vez a Verdade. Portanto essa obra platônica é considerada uma obra aporética, suscitando questionamentos, entretanto não fornecendo de pronto a resposta efetiva.
Esses questionamentos vêem ocupando as mentes pensantes desde então. Porém a racionalidade, sendo esta um produto histórico, sofreu durante quase toda a Idade Média, uma imensa desacerelação, ou seja, neste período o conhecimento, por conseguinte a verdade, era ditada pela Igreja, sendo esta Soberana e Absoluta representante de Deus na Terra. Sendo desta forma, as verdades deixaram de ser buscadas através da razão, ou ainda, somente através desta. A Igreja impunha suas opiniões como sendo estas Verdades reveladas, não estando estas sujeitas a contestações, pois advinham direto de Deus. Alguns tentaram conciliar a Razão e a Fé e estas tentativas tornaram conhecidos Santo Agostinho, São Tomás de Aquino entre outros.
Ao chegar o fim desse longo período histórico a humanidade retoma o classicismo. Atitude que reflete em toda forma de Cultura, literatura, pintura, arquitetura e na maneira de buscar o conhecimento. A Razão retoma então seu lugar como mestra epistemológica, esse período fica conhecido historicamente como Renascimento. A racionalidade é quem dita a ordem do dia na Modernidade. Com a chegada do século XVIII e com ele o Iluminismo a razão chega ao seu ápice, levando Luz a onde a razão ainda não tinha chego.
Neste período que se iniciava então, a ordem era “Fé na Razão”. No final do século XVIII e início do XIX o conhecimento histórico começa a ser discutido. Partindo de Condorcet , filósofo ligado à Enciclopédia, foi um dos primeiros, senão o primeiro a formular a idéia de uma ciência social.
Condorcet formula uma teoria utópica, contestatória do sistema de então. Esse filósofo dá inicio a Escola do pensamento Positivo, que no período em questão possuía, como já mencionado , um caráter revolucionário. Parece estranho a primeira vista para os historiadores do século XXI observar o Positivismo como uma corrente de pensamento revolucionário já que ele é mais lembrado pelo reacionarismo de August Comte. Entretanto isso se deve ao fato de que o conhecimento, por conseguinte a Verdade, serem produtos histórico sofreram a alteridade do mundo, o Devir histórico.
No momento em que Comte reformula o positivismo aos seus moldes, este, o positivismo, já era parte integrante de uma elite burguesa, a qual encontrava-se no poder, portanto não mais revolucionária .
O positivismo tinha por característica básica o enquadramento epistemológico das ciências Naturais, Físicas juntamente com as Ciências Sociais. Postulavam que para se conhecer a sociedade bastava utilizar sobre esta o mesmo método das Ciências ditas Naturais. Partiam do pressuposto de que a sociedade humana é regulada por leis naturais, que essas mesmas leis regulavam a fisiologia social. Concluíam desse pressuposto então que, para se chegar a conhecer a sociedade em todos seus meandros as leis para tanto seriam as mesmas utilizadas para conhecer a Natureza. O que gerava mais uma conclusão lógica, se partindo do pressuposto defendido, que assim como o processo do conhecimento das ciências naturais eram neutras, livres de qualquer valoração, assim também deveria ser o processo epistemológico das Ciências Sociais.
Posterior a Comte existiram outros positivistas com ideologias diferenciadas. Os mais famosos foram Max Weber e Durkheim. Embora cada um acrescentou seu ponto de vista nesta teoria esta continuava sendo organicista e fisiologista, cujo conteúdo filosófico e epistêmico gerava um olhar conservador e até mesmo reacionário, como no caso de Comte, sobre o mundo. Sendo então, no final do século XIX o Positivismo representava um discurso legitimatório, uma Ideologia de fato, ao contrário do período em que deu sua gênese, onde o discurso era utópico.
Entretanto, juntamente, ou seja, em épocas contemporâneas, surge o Historicismo, outra corrente do pensamento humano. Este pensamento deu origem, no final do século XVIII , a Sociologia do Conhecimento, posteriormente a História como disciplina acadêmica. Essa escola colocou o homem no centro do conhecimento histórico, pois esse é parte da própria História. Essa forma de pensar o conhecimento transforma o homem não somente em sujeito mas também em objeto, ou seja, sujeito observando o próprio sujeito.
Essa maneira de obter o conhecimento resultou em uma problemática: Como proporcionar a transubjetividade necessária para chegue-se a um consenso objetivo? Surge então a pecha que o Historicismo carrega até hoje. Sua incapacidade de gerar objetividade em seu discurso epistemológico. Sendo desta forma pode se considerar o Historicismo um método científico confiável?
Alguns historicista tentaram resolver o problema formatando um quebra cabeça científico, o ecleticismo, onde, a parte melhor de cada pensamento constiuiria um todo. Formulação que não convenceu a crítica, mostrando-se fraca e insuficiente para a realização de seu objetivo, a verdade. Provocava mais indagações do que respostas. Dilthey, filósofo alemão, morreu em idade avançada e confessou antes de morrer não ter conseguido resolver os problemas suscitados pelo historicismo, mesmo tendo dedicado a vida toda neste objetivo.
Os vários pensamentos de cunho historicista geravam inúmeras reflexões, destas muitas alimentaram outra Escola então nascente, o Marxismo. Karl Marx , outro filósofo alemão, embora o termo não seja unânime, engendrou aquilo que ficaria conhecido como materialismo histórico dialético.
Essa corrente do pensamento afirmava que a luta de classe era o que gerava mobilidade histórica. Afirmava que o conhecimento ou a ciência era resultado desta mesma luta de classes. A utilização desta pelas classes dominantes era, segundo Marx, facilmente observado através do discurso ideológico contido na Ciência política-econômica .
Entretanto, transformar a obtenção do conhecimento científico verdadeiro como resultante de um único ponto de vista, da classe proletária, é cair num relativismo, embora Marx afirme ser isento, pois acredita estar sendo imparcial quanto sua tese, pois afirma que a Ciência pode ser obtida através de outra classe senão o proletariado, até mesmo da pequena burguesia e da própria burguesia, como no caso de Sismondi e Ricardo, ambos representantes da burguesia . Para Marx o que realmente contava era a intenção e a boa vontade em se buscar a verdade de fato. Porém desta maneira Marx cai na rede crítica do positivismo, pois desta forma Marx acrescenta elementos morais e psicológicos em sua teoria dita materialista, assim como o próprio ecletismo, pois ao selecionar fragmentos teóricos para formatar um todo, Marx cai na mesma incógnita historicista.
Um estudo metódico do livro de Michael Löwy, “Ideologias e Ciência Social – Elementos para uma análise marxista.” Demonstra que o autor em questão é marxista. A forma em que ele é irônico ao apresentar o Positivismo e o Historicismo, sua apresentação é carregada de valor de juízo. Ao apresentar o marxismo ele não formula nenhuma proposição hegeliana , nem mesmo menciona aquele que influenciou Marx em sua teoria, ou posso dizer dogma. Não pode-se esquecer que trata-se de um pensamento Absoluto e determinista, pois ao subverter a teoria hegeliana Marx retirou o atributo “Absoluto” de Deus e transpôs este no homem, sendo o materialismo histórico representado pela luta de classes, em última análise, no homem. É determinista, critica feita constantemente ao hegelianismo, porém não é lembrado que o marxismo também o é. Isso se dá no tocante ao necessitarismo da revolução proletária que antecederá ao comunismo efetivo. Além do mais, por ser uma teoria totalizante, sua prática se dará somente diante ao totalitarismo, coisa esta já comprovada pela própria história. Retomando o texto do autor, um único momento em que percebi um pouco de honestidade científica foi quando ao final do capítulo IV, Michael Löwy correlaciona a teoria marxista com a religião, pois para crer em seus postulados é necessário uma boa dose de Fé.
Outra abordagem que deve ser frisada; o próprio Marx não era um pobre proletário e muito menos Engels. É interessante notar que, na história , a grande maioria daqueles que professaram a “FÉ” marxista também não eram pertencente a pobre coitada classe proletária. A realidade mostra exatamente o contrário, quem está embaixo quer subir e adentrar ao mundo dito pequeno-burguês ou ainda quem sabe pertencer de fato a burguesia. Longe de ser especulações, tais afirmativas são constatações empíricas de que o “pobre”, o proletário, para usar um termo da liturgia marxista, não deseja continuar nesta sua situação e almeja conquistar, não uma casa comunal , mas uma propriedade, a melhor que o capital possa adquirir. Essas afirmativas últimas poderão ser facilmente taxadas por algum marxista com alguma de suas “ladainhas”, “alienado” por exemplo, entretanto, neste momento confessam sua derrota frente aos fatos históricos e demonstram sua falta de capacidade argumentativa.
O parágrafo imediatamente anterior a este é uma comprovação de que a suspensão de juízo quando em busca do conhecimento humano é inviável. O autor , cuja obra está supracitada, ao transcorrer sobre as Escolas em questão, não consegue manter sua pretensa neutralidade como almejava o positivismo; coloca-se dentro do próprio texto com dizeres “eu penso”, “eu acredito”, entre outras formulações que demonstram sua posição em relação aquilo que procura conhecer, assim como apregoa o Historicismo torna-se objeto de sua própria análise, perdendo o distanciamento dito necessário para busca efetiva da verdade epistemológica. Na tentativa de resolver o problema cai no relativismo, pois ao acrescentar opiniões a sua textualização, contextualiza uma tomada de posição, a sua, um círculo vicioso.
Estas mesmas opiniões são facilmente diagnosticadas, um termo que cabe ao se tratar disto, como sendo uma tomada de posição claramente marxista. Posição que disfarçadamente o próprio, simuladamente tenta disfarçar ao ser irônico, como já comentado, no final do capítulo IV. Porém ele ali está sendo mais crítico da Religião, da Teologia, ou ainda de Deus do que propriamente do marxismo.
Conforme solicitação do professor , ministrante desta disciplina foi lido outra obra, a qual deveria ser comparada com a teoria marxista no tocante a conceituar esta como tal ou negar esta conceituação , dizendo os porquês. Foi lido o livro “História & Teoria – Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade.” De José Carlos Reis. A leitura foi feita com voracidade, a qual proporcionou indizível prazer intelectual a este que escreve.
O autor deste ensaio apresentou este livro a um outro professor em sala de aula e este comentou que o autor em questão era marxista, do qual houve discordância veemente. O livro está empregnado de juízo de valor. Ele comenta as teorias da Modernidade Iluminista, passa pelo positivismo e pelo marxismo, porém é no Historicismo que ele demonstra empatia, sua identificação com Dilthey , pensador desta Escola é notória.
Agora, ao procurar um fechamento para este texto cabe lembrar o título do mesmo. O qual implicitamente demonstra a dificuldade de se chegar a Verdade e por conseguinte ao conhecimento. A pergunta que fica é: É possível fazer Ciência? Mesmo antes de ler o livro de José Carlos Reis o autor deste ensaio já se questionava sobre esta dificuldade e argumentava que em virtude das evidentes impossibilidades de se chegar a Verdade quando esta refere-se a Ciência Humanas o mesmo atrevia-se a pensar que não, não é possível fazer Ciência quando o objeto deste é o próprio homem. Portanto, História e as demais Ciências Socias na verdade não são ciência, são atividades intelectuais que proporcionam prazer. Atividade esta que deve ser desenvolvida com uma postura de quem faz ciência, dignidade, respeito, profissionalismo ético, mas sobretudo honestidade consigo e para com o outro . Neste momento eu concordo com Marx, o que conta é a motivação e a postura diante do que se propõem a fazer. Se HISTÓRIA não é ciência? E daí? Continuará a fascinar aqueles que por ela se apaixonaram. Parafrasendo Shakespeare , “O que é um nome? Acaso a rosa tivesse outro nome, não teria esta o mesmo perfume?” O sábio literato inglês punha aqui, como costumeiramente fazia, uma questão claramente filosófica, ontológica. Os historiadores reconhecem o valor de sua atividade, subjetivamente a devoram, agora, perdendo esta o “status” de Ciência, deixará de ser o que é para cada um de seus partidários? Acredito que não! A atitude racional e científica e até mesmo lógica e aceitar humildemente a conclusão decorrente das premissas históricas: História não é Ciência. José Carlos Reis mostrou que não são poucos que pensam desta forma. Venha engrossar este ponto de vista! “ Mais um relativista!”






REFERÊNCIAS:






Löwy, Michael; Ideologias e Ciências Sociais – Elementos para uma análise marxista
17ª ed., Cortez Editora

Reis, José Carlos ; História & Teoria – Historicismo, Modernidade, Temporalidade e Verdade 1ª ed. , Editora FGV

A PRÉ-HISTÓRIA

A PRÉ-HISTÓRIA
A pré-história consiste em um longo período, cerca de 98 % do tempo de existência humana. A pesquisa relativa a esta fase do homem sobre a Terra tem avançado através da Arqueologia, no entanto, por tratar-se de um período longingüo, são enormes as dificuldades para obter conhecimento concernente a este.
A Arqueologia, ao contrário da Paleontologia, que estuda somente os fósseis animais e vegetais, procura conhecer as “coisas velhas” do homem. A tentativa é amealhar resíduos das atividades humana, digamos, constituir um “porta-treco” com um fim específico, conhecer a origem do homem e a este dar a oportunidade de se conhecer. Então, o que a Arqueologia busca encontrar é a cultura material extraviada no tempo e no espaço, elementos materiais que venham a ser “porta- voz” de uma época específica, no caso aqui, da pré-história.
No século XIX Charles Darwin inaugura sua teoria das espécies, na qual afirmava que o homem havia evoluído de seres inferiores a si e que o homem era fruto desta evolução, bem como de uma seleção natural, a qual selecionou o resultado desta mesma evolução como uma espécie exitosa. Porém, o que ocorreu neste processo? O que contribuiu para que o homem chegasse com êxito ao estágio evolutivo que se conhece atualmente?
Por tratar-se de um longo período, a pré-história comporta em si drásticas mudanças. Essas mudanças são de várias ordens, não apenas biológicas, mas também meteorológicas e geológicas. As glaciações, congelamento do planeta a partir dos pólos em direção aos trópicos, afetaram o clima na Terra e por conseqüência a vida sobre ela. A própria Terra movimentava-se em sua entranhas, o seu subterrâneo, a procura de uma melhor conformação de sua calotas provocava variações geológicas, que são catalogadas e caracterizadas pela Geologia em determinados períodos.
Há mais ou menos 4.000.000 de anos surge o Australopitecus, ancestral do homem na linhagem evolutiva. Esse primata surge no período geológico denominado Pleistoceno inferior. Esse tipo de primata então retira-se das florestas tropicais para adaptar-se à vida nas savanas. Ele já se diferenciava dos demais primatas pela utilização das mãos em outras funções que não a locomotora, pois o Austalopitecus adquire postura bípede. Com o tempo sua coluna dorsal se adapta a este comportamento, antes de tudo, cultural, mesmo antes deste ser o padrão biológico; o que possibilita a esse ancestral do homem percorrer longas distâncias na Terra.
Embora saiba-se hoje que o homem não descende de macacos ou ainda de chimpanzés, é aceito que tanto o homem quanto estes possuem um ancestral comum. Também é de conhecimento a mínima margem de percentual genético que separa o homem do chimpanzé, compartilhando este de 98% da carga genética do homem. Portanto, são apenas 2% que faz toda a diferença. Essa constatação permite afirmar que o homem é muito mais do que um animal.
Por mais insólito que pareça, na Índia aconteceu de meninas perdidas ainda bebês serem amamentadas e criadas por lobas, longe de qualquer contato humano. Ao serem encontradas anos depois possuíam comportamento de mais um elemento da matilha, uivando e mostrando os dentes em posição de ataque e de humanas tinham apenas a carga genética, inexistindo qualquer coisa que demonstrasse que elas tinham significação de mundo. Faltava a elas aquilo que desde priscas eras fez com que o Australopitecus se erguessem nas savanas – a cultura. A cultura faz com que o homem entre em contato com um mundo particular, o mundo dos símbolos, sendo este que dá sentido a existência humana. Esse sentido, ou melhor, essa significação, fica explicitada com o aparecimento da linguagem.
Não se sabe ao certo em que momento a linguagem aparece no cenário, no entanto a estimativa mais aceita entre os pesquisadores é em torno de 2.000.000 de anos. Isso se deve ao fato que, neste período do Paleolítico inferior, surge o Homo habilis . Nos sítios arqueológicos em que este é encontrado percebe-se que pela primeira vez, dentro da escala evolutiva, o uso de instrumentos fabricados. É neste sentido que este ancestral humano pode ser denominado um hominídeo . Pois longe de meramente pertencer a uma classe zoológica, o Homo habilis pressupõe inteligência, memória, comunicação efetiva através da linguagem, isto porque torna-se inconcebível o acúmulo de conhecimento apresentado por este representante evolutivo na elaboração de instrumentos e o repasse deste conhecimento a futuras gerações sem que houvesse uma linguagem corrente.
Entretanto, o uso de instrumentos por si só não caracteriza um ser pensante, pois outros primatas também o fazem. O chimpanzé, por exemplo, utiliza-se de instrumentalização. Então, o que diferencia os hominídeos de seus parentes evolutivos? Novamente a cultura entra como elemento determinante. É a cultura, ou melhor, a capacidade de adquirir cultura que distingui os hominídeos dos demais animais. Ao incorporar hábitos culturais à sua existência, o homem modificou até mesmo sua natureza. Um exemplo disto já foi apresentado neste texto. Antes mesmo de possuir um corpo adaptado ao bipedismo o Australopitecus já se erguia nas savanas sobre suas pernas, deixando então os membros superiores livres para a apreensão de outras atividades que não a locomoção.
Esse fato, ou seja, a aquisição de cultura e sua contribuição para a modificação da estrutura biológica dos hominídeos caracteriza um padrão dialético. A cultura se faria presente graças à evolução biológica ou esta se deu somente frente à cultura? Uma reflexão mais aprofundada mostra a dependência de uma sobre a outra, que o homem sem cultura seria apenas mais um ente na natureza, mais um animal sem maiores distinções sobre os demais. Porém, sem possuir a carga genética que detinha, seria impossível aos homonídeos chegarem ao Homo sapiens sapiens.
Uma prova disto seria a capacidade craniana. Pesquisas mostram que a presença de carne vermelha na alimentação dos Austalopitecus e dos demais ascendentes do homem seria determinante para o aumento significativo que se deu da capacidade craniana. Se no Australopitecus essa capacidade era de 450 à 650 cm3 , no transcorrer de milhões de anos de evolução, já no Homo sapiens sapiens essa capacidade chegou a 1.700 cm3 . Percebe-se que naturalmente o homem não é nem foi em nenhum momento dotado de equipamento biológico compatível com a alimentação de carnes. Sua mandíbula e dentição são frágeis, no entanto, através da caça, atividade essencialmente cultural, bem como social, os hominídeos começam a utilizar-se da carne vermelha e por meio desta atividade cultural, como já explanado, modificam sua própria biologia.
Como já foi dito, a caça, atividade cultural por excelência e por conseqüência social, foi de suma importância antropológica. A caça determina o início da noção de família. Enquanto ao hominídeo do sexo masculino caberia o exercício da caça, a representante do sexo feminino caberia o exercício dos cuidados maternos. De uma maneira sumária pode-se afirmar que esta divisão de tarefas seria determinante para a dominação do homem sobre a mulher no contexto social.
Na seqüência evolutiva constata-se a presença do Homo erectus, onde a postura ereta torna-se mais aperfeiçoada do que em seus antecessores evolutivos. É com este que o homem aprende a dominar o fogo e com isso permite com que salve-se da extinção frente às mudanças climáticas apresentadas no período. Devido à glaciação que este antepassado do homem enfrentou, não fosse o fogo, as possibilidades de não extinção seriam ínfimas. O fogo possibilitou a adaptação do homem frente às mudanças climáticas.
O Homo sapiens neanderthalensis é uma espécime de hominídeo encontrado nas escavações arqueológicas, por sinal, o primeiro encontrado foi em 1856.Entretanto, pesquisas comprovam que , embora essa espécime seja um produto evolutivo hominídeo e que apareceu a cerca de 100.000 anos, não é definitivamente ancestral do homem moderno. Possuem entre si antepassados comuns, porém o Homem de Neanderthal é pertencente a um ramo paralelo ao Homo sapiens. O Homo sapiens sapiens, como conhecemos hoje surge por volta de 70.000 anos.
O argumento maior, a premissa mais cara deste texto é constituída do seguinte axioma: O homem é definitivamente um ser cultural. Definir a pré-história em períodos tecnológicos, Paleolítico, Mesolítico e Neolítico é fazer referência à cultura. A fabricação de instrumentos utilizando-se da natureza e a transformando a fim de adaptá-la às suas necessidades, faz do homem um ser único. A postura ereta, a utilização das mãos e a procura de uma visão mais aguçada, são transformações biológicas que possuíram antecedentes culturais, pois antes mesmo do corpo estar adaptado à determinada atividade, o homem já buscava extrapolar seus limites. Faltava a ele agora era “fazer” História!